O maior desastre ambiental do Brasil

mariana-foto4Acidentes, enquanto um fato imprevisto, podem acontecer, mesmo quando se fez de tudo para evitá-lo. No entanto, parece que não ter sido um acidente quando a barragem de resíduos de mineração da empresa Samarco se rompeu, na tarde do último dia 05 de novembro, na cidade de Mariana/MG, localidade de Bento Rodrigues, causando mortes e danos sociais e ambientais irreparáveis, afetando direta mente a vida de milhares de pessoas.

 Apesar de a empresa envolvida e a “grande mídia”, tendenciosa e interessada no que pode ganhar com a situação, estarem provavelmente unidas no sentido de manipular informações e hipnotizar os telespectadores de que se tratou de um acidente ou uma fatalidade, precisamos menos inocência e mais perspicácia para lidar com o mundo onde vivemos, conforme a sábia advertência de Jesus de sermos mansos como a pomba e prudentes como a serpente. Não quero parecer ser leviano, já que não tenho elementos para comprovar, tecnicamente, a causa material do rompimento, o que somente um laudo de engenharia poderá atestar. Porém, pretendo mostrar ao leitor que sobram fortes motivos para afirmar que o que ocorreu, na verdade, foi uma tragédia anunciada, e não um acidente imprevisível. Ao final, quero lançar reflexões sobre o universo de ação dos espíritas perante as questões de seu tempo.

Por que penso que se tratou de uma tragédia anunciada?

Primeiro, há 20 anos existe o Movimento dos Atingidos por Barragens – MAM –, que defende os direitos dos atingidos por desastres causados por barragens, a desmercantilização da água e da energia e a construção de um projeto popular para o país. Portanto, rompimento de barragens já ocorre há bastante tempo, e ninguém pode falar que nunca poderia imaginar essa possibilidade, exceto se provido de um cinismo em doses cavalares.

Segundo, de acordo com o site de notícias “Brasil de fato”, que entrevistou Márcio Zonta, um militante do MAM, tais barragens são construídas, mantidas e, principalmente, “fiscalizadas” por iniciativa da própria empresa. Ou seja, não há uma auditoria ou fiscalização minuciosa feita por órgãos ambientais e outros, como os de engenharia, determinando como tais barragens devem ser feitas, quais materiais devem ser utilizados, quais investimentos devem ser realizados, etc. Essa “auditoria” é feita pela empresa, que, naturalmente, agirá de acordo com seus interesses lucrativos, já que o que importa é extrair o minério e vendê- lo, e não o que será feito de seus resíduos. Todos os investimentos da empresa são voltados para o produto final, e não para o lixo que ele produz.

No site da empresa Samarco, que é propriedade das empresas ” BHP Billiton do Brasil maxresdefault-1LTDA”  e “Vale S/A”, não seria de esperar outra postura senão se desculpar e antecipar sua inocência, afirmando que a barragem era segura, e que possuía licenças de operação e contava com inspeções próprias. E já se está ventilando na “grande mídia” a notícia de que um abalo sísmico teria sido sentido no momento do rompimento. Isso nos leva ao terceiro ponto.


Em terceiro, ainda que um abalo sísmico tenha causado o rompimento, ainda não é desculpável. Primeiro, porque qualquer obra de engenharia, principalmente da magnitude de uma barragem como a que se rompeu, deve prever abalos eventuais. Segundo, porque, ao se aceitar a atividade de extração mineral do modo como ela é feita, para alimentar um consumismo desenfreado, absurdo e alienado, precisa-se aceitar os seus custos. Para ir direto ao ponto: a existência de barragens com resíduos de mineração é uma escolha moral, enquanto compreensão média acerca do certo e do errado na ação humana, e diz respeito a todos nós.

Talvez o melhor exemplo para ilustrar isso seja os danos causados na usina de Fukushima pelo tsunami de 2011, no Japão, provocando um desastre nuclear. Qualquer um poderia dizer que foi um acidente, ocorrido pela ação da natureza. Pode ser que sim. Mas, quando queremos avançar nos temas que nos afetam, é necessário considerar que o “acidente” nuclear somente ocorreu porque, num âmbito moral, a escolha do povo japonês foi pela energia atômica, quando poderiam ter investido em outros tipos de energia. Outro exemplo. O Brasil possui quatro grandes indústrias bélicas. Ao aceitarmos tal fato, é necessário aceitar também os resultados: que produzimos nossas próprias cifras astronômicas de homicídios e alimentamos guerras ao redor do mundo. O fato de existir a indústria bélica no Brasil, e não haver nenhum movimento significativo que exija o seu fim, é um ato moral. É como se, em nosso repertório moral, disséssemos que abrigar a indústria da morte não é algo reprovável. Ao contrário, é bom, pois gera tributos, divisas e empregos.

 mariana-mg-tragediaLogo, assim como a tendência de culpar o outro é pequena e infantil, achar que tais situações não nos dizem respeito só aumenta o problema. Por isso, faz -se necessário acolher como nosso não apenas os bônus do “desenvolvimento”, mas também os ônus, vale dizer, assumirmos a responsabilidade do que deu certo e do que deu errado: é querer mais crescimento econômico e mais indústria, mas também mais degradação ambiental. Enfim, acolher a experiência do acerto (o bem – estar que a mineração gera) e a do erro (o lixo que vem da mineração) significa, no fundo, ter maturidade para entender que a satisfação das necessidades materiais não precisa causar o extermínio da humanidade.

Portanto, se há barragens de resíduos de mineração é porque nosso horizonte de escolhas morais acolheu – a sem muitos problemas, e aquele que quer avançar na regeneração deste Planeta precisa refletir sobre tais questões. Por exemplo: até que ponto uma vida humana digna precisa de barragens dessa magnitude, de usinas nucleares ou da indústria bélica? Se são necessárias, qual o custo que estamos dispostos a pagar por elas?

Em quarto, todas as instituições que poderiam ter feito algo falharam, por ação ou por omissão – do legislativo, que só edita leis frouxas para agraciar o grande capital; do executivo, que não cumpre a lei, ou a cumpre parcialmente, ou para atender, novamente, o interesse do grande capital; do judiciário, ineficiente e medieval, pronto para proteger, mais uma vez, o grande capital; e do ministério público, canhestro como o judiciário, que só age quando o mal já aconteceu. Todos dão suas desculpas, e todos brincam com nossa inteligência.

Por fim, e o mais importante: enquanto vivermos num contexto sociopolítico capitalista, e os mais elevados e sublimes horizontes humanos, éticos e sociais acerca do homem for determinado pelo capital e pelo consumo, de uma sociedade composta por semi -robôs, automatizados a entrar nessa sociedade vazia por aquilo que chamam de educação (que é lavagem cerebral) e liberdade (que é submissão), tais fatos não poderão ser tomados como acidentes, a menos que se queira apequenar a morte e o sofrimento de quem sente diretamente suas consequências.

 Enquanto nossa visão de mundo não se inquietar com o fato de toda uma existência foto-5-para-texto-5humana ser orientada, do início ao fim, para o trabalho e o consumo aliena dos, enquanto a humanidade do homem for pareada à busca de papel – moeda em detrimento de sua realização plena, enquanto a energia humana tiver que alimentar um sistema que torna a grande maioria da humanidade em bestas de carga para o regalo de 1% que usufrui do que todos produzem, então nada disso poderá ser considerado “acidente”.


 Pois, enquanto for assim, mais barragens de resíduos de mineração, assim como usinas nucleares, indústrias bélicas e outras tão inúteis quanto, terão que ser construídas (e do modo como são construídas) para atender um mercado crescentemente voraz, sedento, que, no fundo, revela seres humanos incapazes de refletir conscientemente sobre as condições mais básicas da existência humana, não somente as de cunho material, mas também as afetivas, as éticas e as do sentimento.

  Agora, as pessoas, em geral, estão tão inseridas na ideologia do capitalismo e do consumo  que têm dificuldade para compreender isso, e mesmo as soluções que conseguem enxergar se dá dentro da cosmovisão capitalista. Acham que o mundo deve funcionar do modo como funciona, não havendo espaço para alternativas, sendo que, se houvesse coragem para repensar a situação socioeconômica humana, não haveria tanta necessidade da atividade mineradora, e certamente encontraríamos outros trabalhos e condições devida muito mais dignas do que as migalhas que a Samarco dá aos seus trabalha dores em troca dos bilhões de dólares anuais em lucros líquidos. Não à toa Walter Benjamin, um dos maiores intelectuais do século XX, afirmou que o capitalismo é uma religião, no qual o ser humano presta o culto diário ao Deus – dinheiro.

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Mariana_MG, 05 de Novembro de 2015 Barragem de rejeitos da mineradora Samarco em Germano se rompe e atinge áreas povoadas. Na foto, o distrito de Bento Rodrigues, o mais atingido pela tragedia. Imagem: HUGO CORDEIRO

E o mais deprimente é saber que, muito possivelmente, os diretores e os acionistas da empresa Samarco estarão em suas casas, bebendo e banhando – se em água limpa, certamente muito condoídos com as reportagens sobre o fato, enquanto milhares de pessoas, que nunca tiveram qual- quer melhoria em suas vidas com a atividade mineradora, com a Samarco ou como a Vale, passarão os próximos meses sem ter acesso a um bem vital ou com atividades produtivas comprometidas, como os pescadores e agricultores. Portanto, o rompimento da barragem não foi um acidente, pois deveria ter sido assumido como um risco possível e, no mínimo, medidas mais enérgicas deveriam ter sido tomadas.


   Com tais apontamentos sucintos, a pergunta é: o que isso tem a ver com o espírita?

 Tudo, primeiro, porque os espíritos da codificação insistem no fato de que este mundo está errado e precisa ser corrigido, quando afirmam que um dos objetivos do espiritismo é reformar as instituições. Segundo, porque os espíritas são, em geral, aqueles que se auto apresentam como seguidores de Jesus, o qual demonstrou, como ninguém, o mais elevado significado do que seja reformar o mundo, de lutar contra as injustiças e as incorreções de uma época.

 Portanto, o espírita, com o referencial teórico do espiritismo e o referencial ético de Jesus, deveria ser inquieto com as questões que afligem seu tempo.

 Porém, é espantoso que o movimento espírita mantenha-se, em regra, tão alheio a tais questões. Com raras exceções, não se questiona a sociedade, o capitalismo, as alternativas ao capitalismo, o machismo, o racismo, a violência, os homicídios, a drogadição, a degradação ambiental, o elevado grau de letalidade das polícias, a podridão política, o uso político da religião, dentre outros temas palpitantes e que nos afetam de imediato. Tais fatos passam ao largo da discussão e do enfrentamento no ambiente espírita, e isso em nome de uma harmonia fajuta e hipócrita, num medo quase desesperador do debate e da crítica.

 E, daí, é deprimente ver que o horizonte onde espíritas tratam de casos como o do rompimento da barragem serem colocados na vala comum da “expiação coletiva” e, assim, continuam agindo como os medievais, explicando as misérias que nos alcançam como sendo obra de Deus.

Essa postura talvez seja efeito da preguiça intelectual e de inatividade social que caiu o movimento espírita nas últimas décadas, que prefere pajear médiuns, assistir palestras teatralizadas e ouvir contadores de histórias do que discutir e enfrentar, com a simplicidade e os limites de cada um, aquilo que está ao seu redor, pois somente sendo muito alheio ao mundo para falar em termos de “expiação coletiva” casos que são consequência da ação (e omissão) direta de encarnados.

Conforme dito, se há barragens de resíduos de mineração, esse lixo deveria ter sido melhor cuidado. Se a barragem se rompeu, é porque foi mal construída. E se houve interferência da natureza, sua construção deveria ter sido ainda melhor. Ponto final. Deus não precisa sujar seu dedo  para destruir uma barragem quando a ganância, a cobiça e a insensibilidade humana já fizeram o trabalho com maestria.


 Desse modo, prefere – se permanecer num círculo estreito de leituras evangélicas, que bento_rodrigues-1certamente são necessárias, mas que é pouco diante da tarefa da regeneração. Aliado a isso, apesar daqueles bem – intencionados, é necessário dizer que, grosso modo, a mentalidade média do espírita foca num Jesus deprimente, num fundador de uma religião, que fez alguns fatos notáveis e que morreu pregado na cruz. Mas isso é muito pequeno.

O desafio é pensar em Jesus como um homem de energia, um profeta, no sentido mais pleno dessa palavra, alguém fora de seu tempo, um reformador moral e social, que exaltou a escória humana e humilhou os poderosos. Esse Jesus é ainda mais que um profeta: é a esperança dos que não tem o que comer num mundo onde há comida para todos; é a visão da justiça num mundo de injustiças; é o raio de verdade num ambiente saturado de mentiras; é a possibilidade de plenitude que habita em todo ser humano num mundo que compele esse ser humano a  ser vazio e alienado; é a firmeza para aqueles cuja coragem de prosseguir está por um fio, e a tábua de salvação para quem perdeu as forças para lutar.

Esse Jesus foi detestado e temido, tendo que ser morto para garantir que as estruturas opressoras da sociedade judaica sobrevivessem. E o espírita, hoje, é aquele que deve reproduzir seu exemplo e sua postura perante o mundo que, ainda hoje, é profundamente farisaico.

95xl3ds8iy_6oz9yykm3g_fileQualquer um que queira o melhor para o mundo, e principalmente para quem se autointitula seguidor ou trabalhador de Jesus, tem o dever de tomar como sua a luta que Jesus empreendeu. Deve ser, como ele, um inconformado. Se, no mundo, pessoas precisam morrer soterradas para que o grande capital possa se refastelar com ganhos monetários absurdos, enquanto a vida humana tiver que ser aviltada para que meia dúzia encha os bolsos com pedaços de papel – moeda, o espírita é aquele que, no mínimo, deve se indignar com isso.

 A morte dessas pessoas – novas vítimas de um velho sistema que oprime, explora, mata e tolhe oportunidades – não pode ser em vão. E o sentimento que deve animar o espírita comprometido com seu tempo é, no mínimo, refletir sobre tudo isso e agir, dentro das possibilidades, pela transformação de uma sociedade em que o rompimento de uma barragem de resíduos de mineração é uma pequenina ponta de um imenso iceberg de podridão e lama.

Raphael Faé

Matéria de Capa publicada em Novembro de 2015. Ano I Nº 11
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3 comentários em “O maior desastre ambiental do Brasil

  1. Gostei muito da matéria. Percebi que não estou só na inquietude relacionadas a deteminados acontecimentos no país, fico sem entender e aceitar que diante dos ensinamentos de Jesus e da Doutrina Espírita ainda haja pensamentos e atitudes tão conformista.

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