Entrevista: César Reis

Cesar-ReisNosso entrevistado do mês é Cesar Soares dos Reis, natural do Rio de Janeiro, nascido em 1938, coronel reformado do Exército. Formado na Academia Militar das Agulhas Negras, em 1959; em Matemática pela Universidade do Sul de Minas; pós-graduado em Pesquisa Operacional pelo Instituto Militar de Engenharia, além de ter participado de diversos cursos na Fundação Getúlio Vargas, nas áreas da Administração e Economia. Atualmente, é professor do Colégio Militar do Rio de Janeiro e de diversas universidades, nas áreas da Matemática e da Administração. É também diretor-presidente do Instituto de Cultura Espírita do Brasil, membro do Conselho Superior da Federação Espírita Brasileira, ligado ao Lar Fabiano de Cristo desde 1965. Foi coordenador de unidade assistencial em Três Corações, depois diretor, vice-presidente e presidente. Na antiga Capemi foi diretor, vice-presidente e presidente, Com a transformação definida pela legislação, é presidente do Conselho de Administração da Capemisa Seguradora, diretor-presidente da Capemisa Social e conselheiro do Lar Fabiano.


Jornal Crítica Espírita—Coronel César Reis, o senhor participa de instituições que desenvolvem projetos de amplo impacto social, com reconhecimento mundial. Conte para nossos leitores como surgiu a Capemisa Social e o Lar Fabiano de Cristo

CESAR REIS – A Capemisa Social surgiu em 2008 como desdobramento da Capemi, por questões da legislação. O Lar Fabiano foi fundado em 1958 e, dentro dele, em 1960, foi fundada a Capema, depois Capemi. Os dirigentes eram os mesmos, voluntários. Desde o início, por disposição estatutária, a Capemi gerava recursos para a sustentação do Lar. Os pioneiros diziam que o modelo funcionava com uma mão que arrecada e uma mão que distribui mas o coração é o mesmo. Isto vale sempre, é nossa cláusula pétrea. Temos assim um importante trabalho assistencial que está em todo o País. O Lar Fabiano executa diretamente, em suas unidades, o apoio a famílias em situação de miséria, em suas cerca de 54 unidades próprias. A Capemisa Social é uma entidade de assessoria, treinando, capacitando pessoas e dirigentes para que possam cumprir bem as suas tarefas. Também há uma ajuda financeira de complementação para mais de 140 unidades em todo o Brasil

Jornal Crítica Espírita– Quais são hoje os maiores desafios que essas instituições enfrentam?

CESAR REIS – Os maiores desafios estão na contínua adequação aos ditames das leis nas áreas sociais. De uns anos para cá houve mudanças profundas na legislação que implicam, inclusive, em aumento de custos. Além disso, na área de geração de recursos, a economia brasileira não vive um bom momento.

Jornal Crítica Espírita – O Brasil, segundo dados da ONU, é o segundo país mais desigual do mundo. A que o senhor atribui como causa dessa situação, e quais os caminhos para superá-la?

CESAR REIS– A desigualdade social no Brasil é histórica. Grande concentração de riquezas nas mãos de poucos. Muita dificuldade para uma legião de criaturas que vivem em situação de miséria. Se há causas históricas, também há causas políticas, organizacionais e, diria, profundamente educacionais. Interesses políticos, revivendo os feudos dos “velhos coronéis”, continuam presentes. O bem público ainda é uma abstração interpretada pelos poderosos do momento. Precisamos de uma educação de qualidade, em todo o País, a fim de formar gerações preparadas para a discussão verdadeira dos grandes temas nacionais, que dê efetiva responsabilidade

Jornal Crítica Espírita-Como conferencista do painel Economia, no I Encontro Jurídico Espírita do Espírito Santo, o tema de sua exposição foi “Uma Economia para a Nova Era”. Para quem não foi ao evento e em poucas palavras, do que se trata essa economia e essa nova era?

CESAR REIS– Na nova era imaginamos uma sociedade conectada, em rede. Nenhuma rede é mais forte do que sua malha mais fraca, parodiando Gibran. Então pensamos em fortalecer as malhas que se transformariam em pequenas redes locais, integradas gradativamente a redes maiores, até que se chegue à grande rede mundial onde todos serão igualmente agentes e pacientes e serão responsabilizados por isso. Mostramos exemplos de iniciativas que existem, como bancos comunitários e cooperativos que estão mudando a viva de muita gente, anteriormente marginalizada. Há um novo conceito de crédito solidário e os juros são nas imediações do zero. Há capacitação e treinamento para empreendedorismo, estímulo ao trabalho, banco de horas de voluntariado, enfim, mesmo nas condições difíceis de nossa sociedade de hoje já se demonstra que é possível mudar a partir do conceito de redes de mutualidade. Na nova era teremos soluções simples, locais, mas que funcionam para que todas as pessoas possam usufruir de uma nova era onde o conforto essencial será disponibilizado para todo

Jornal Crítica Espírita-O cenário econômico mundial é dominado pelo capitalismo, em sua feição mais individualista, opressora, injusta e egoísta. Como romper com isso?

CESAR REIS– Nosso problema não é de capitalismo ou socialismo ou seja qual for o nome que se queira dar ao sistema econômico vigente. Tudo funciona onde há o bem. Nada funciona onde há a cobiça, a avareza, a injustiça, a opressão. Nosso problema não é de sistema. Nosso problema está no homem. Nenhum sistema funcionou bem até hoje. Porque predomina o egoísmo e, por decorrência, luta-se por interesses que aviltam o homem que teima em ignorar que a lição das coisas que sobrevivem, crescem e se desenvolvem está na cooperação. Vemos isso nas células, na estrutura atômica, nas plantas, em todos os reinos, exceto no reino humano que, ao usar o livre-arbítrio discricionariamente, vive na contramão de todo o processo evolutivo. Evoluímos porque é a lei divina que se nos impõe. Se fosse depender só de nós, ainda estaríamos na idade da pedra, caçando, matando, disputando espaço, poder, domínio. Aliás, se olharmos bem, embora sofisticados, continuamos matando, roubando, destruindo, lutando pelo poder, querendo mandar, ganhar, enquanto o outro deve perder. Olhemos a história, as civilizações da Índia, do Egito, da Mesopotâmia, os gregos, os romanos, a Idade Média com as Cruzadas, a Inquisição, a tragédia da revolução francesa que levantou a bandeira da liberdade e da igualdade mas, esquecendo-se da fraternidade, desaguou no regime do terror. No século XX ficamos ainda mais inteligentes e mais perigosos, os sistemas da época, ditos socialista ou comunistas ou imperialistas, nos atiraram a duas guerras mundiais e a centenas de outras guerras que estão por ai. Parece que somos cada vez mais inteligentes, com os computadores fantásticos, as sondas interplanetárias, os microscópios eletrônicos. Mas somos também cada vez mais perigosos. Temos arsenais nucleares capazes de destruir a Terra dezenas de vezes embora uma só fosse suficiente. Gastamos fortunas em cosméticos e em dietas mas nossos irmãos nas favelas do Brasil, na África, na Ásia e também, hoje, em boa parte da Europa, morrem de doenças simples, porque não têm acesso a água, a esgotos, a vacinas de baixo custo. É de se perguntar, quando destruímos o meio ambiente, quando ultrapassamos a capacidade de regeneração da mãe Natureza, o inteligente homem do século XXI aonde vai com seus sofisticados sistemas sociais? Repetimos: qualquer sistema serve quando o homem é um homem de bem. A recíproca é verdadeira. O problema não é do sistema, é do homem.

Jornal Crítica Espírita-O senhor foi um dos idealizadores do cartão de crédito “O BEM”, cujo objetivo seria criar um fundo para financiar projetos, espíritas ou não, que promovessem a tolerância, o respeito, a diversidade, a solidariedade, etc. Porém, o cartão sofreu duras críticas do movimento espírita. Conte como foi a implantação do cartão e como está atualmente.

CESAR REIS– O Cartão do Bem está parado. Agradeço as críticas dos irmãos. Elas serviram para me alertar. Necessitaria de um sistema de informática bem sofisticado para prestar contas online do lançamento que estava sendo feito. Também necessitaria de funding bastante razoável que, no momento não estava disponibilizado para nós. Na verdade nós só queríamos apoiar as obras do bem mas não estávamos preparados. A ideia básica era a que temos na Obra de Fabiano. Se temos despesas certas em nossos trabalhos de assistência, nossas receitas são incertas, várias de nossas federativas têm problemas, estão em estados enormes, como, por exemplo, o Pará, Amazonas, Bahia, dentre outros. As visitas dos dirigentes são pagas do próprio bolso, viagens, hotéis e todos os demais custos com equipamentos. O trabalho federativo se transforma muitas vezes em sacrifício pessoal e, também, é limitador. Quem não tem recursos pessoais fica restrito. O Cartão do Bem viria para ajudar na geração de recursos para a área social e para a gestão administrativa do trabalho federativo. Temos uma experiência com uma das unidades da Obra de Fabiano, lá do Rio Grande do Sul. Vendemos um produto com sorteio. Uma parte da arrecadação, de acordo com a lei, é disponibilizada para a APAE que, assim, tem seu orçamento anual assegurado para prestar os serviços que nós todos admiramos. Não é um cartão espírita, nem um cartão da APAE. É apenas um cartão do bem. E funciona.

Jornal Crítica Espírita-Em sua exposição no I Encontro Jurídico Espírita do Espírito Santo, o senhor falou muito da sociedade como algo vivo e da importância da rede, em que os atos praticados inevitavelmente repercutem numa infinidade de locais, desde a família até grupos maiores. Como o senhor vê o papel do Centro Espírita e daqueles que querem participar de uma economia da nova era na construção de uma rede em que todos ganhem?

CESAR REIS– O centro espírita deve ser uma célula viva da comunidade onde se situa. Inicialmente verificamos que há grande quantidade de casas espíritas que não funcionam durante os dias da semana, exceto, por vezes, aos sábados e domingos. Num País pobre como o nosso, é um desperdício tantas salas fechadas, que poderiam ser usadas pela comunidade. Seria também, excelente oportunidade de trabalho para voluntários. A legislação de assistência social de hoje nos convoca ao territorialismo, ou seja, depois de uma análise dos problemas do local, do território onde o Centro se posiciona, ele pode se oferecer como um equipamento, uma ferramenta que se integra com os demais equipamentos do território para que as pessoas que vivem ali, vivam melhor. Isso pode ser o começo de uma série de ações comunitárias que acabarão por beneficiar o próprio centro. Não se trata de catequizar ninguém, mas é abençoada oportunidade de trabalho que podemos aproveitar para disseminar o bem, a tolerância, a solidariedade e tantos outros valores que, pelo exemplo, podem servir para disseminar o modo espírita de viver lembrando de Herculano Pires que nos informa ser o Espiritismo uma filosofia prática.

Jornal Crítica Espírita-Qual sua avaliação do I Encontro Jurídico Espírita do Espírito Santo, e o senhor pode contribuir com alguma sugestão para que o próximo seja melhor?

CESAR REIS—Não pude participar de todo o encontro mas do que vi, fiquei feliz e honrado. Encontrar pensadores daquele calibre foi oportunidade de crescimento para mim. Quanto a sugestões, muito me agrada uma participação maciça de todos. Sugeriria fossem montados grupos, oficinas, com estimuladores, dentro de temas previamente definidos. Os grupos fariam seus relatórios e os apresentariam. No final do dia, um dos expositores convidados faria uma palestra síntese, para o encerramento do tópico em debate. Menos palestras magistrais e mais oportunidade de trabalho e participação para todos.

Entrevista publicada na edição de Maio de 2015, Ano I, Vol, V.


Conheça as instituições:

 Instituto de Cultura Espírita do Brasil

TV ICEB 

Lar Fabiano de Cristo

 Os curso do Instituto de Culta Espírita do Brasil são ministrados na Sede do ICEB na Rua Francisco Xavier, nº 609,  Maracanã , RJ, aos sábados, sendo transmitidos ao vivo pela  TV ICEB sempre as 14:00h. Acompanhe a programação no Site da Instituição

 

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