A Dinâmica da Caridade

dinamica da caridadeA matéria de capa do mês de Setembro de 2015 trouxe um texto de Raphael Faé Baptista. Com um olhar crítico da realidade contemporânea, o autor traça em seu artigo os elementos mais profundos de uma verdadeira caridade.

Para o autor não basta que as classes abonadas doem parte de seus privilégios, embora essa postura seja necessária em um país em que se contesta o fato de 1% do BIP ser destinado a bolsa de combate a miséria enquanto 60% é pago de juros e amortizações da dívida pública.

Faz-se necessário um olhar diferente sobre a ideia de propriedade, para que nenhum ser humano viva sem o mínimo para sua dignidade.


Nos últimos dias, as imagens do corpo do menino Aylan Kurdi, que fugia da guerra na Síria e morreu num naufrágio, parece ter sacudido a opinião pública, mas, como previsível, não o suficiente para levar a uma discussão aprofundada sobre os problemas da sociedade atual. No ambiente espírita, inclusive, chegou-se a afirmar que a morte de Aylan se deu em virtude de sua programação reencarnatória, o que dá no mesmo dizer que aconteceu porque Deus quis, e o que resta é aceitar tal situação, sem questionar eventual responsabilidade humana.

Porém, entendendo que tal fato, assim como outros milhares desconhecidos, não pode ser tratado com tanta leviandade, pretendo apresentar ao leitor uma breve discussão acerca da construção de uma sociedade efetivamente caridosa. Isso porque a ideia comum sobre a caridade é deturpada e aquém de seu real significado. Em regra, pensa-se na caridade como doação: dar esmolas, distribuir roupa e comida e, numa visão mais avançada, doar o próprio tempo. Porém, nada disso se pode dizer propriamente “caridade”, ao menos se lhe buscarmos um sentido mais pleno.

Para alcançar esse sentido precisamos, primeiro, evidenciar os horizontes ou quadros morais onde vivemos, quadros que não somente apontam para o certo ou o errado, o bom ou o mal, mas também para o digno ou o degradante, para o qusyria-2015-photose merece repulsa e repugnância ou respeito e admiração. Engana-se quem pensa viver num ambiente moralmente neutro: o simples fato de existir já significa, socialmente, assumir uma postura moral. Como consequência, quando pensamos sobre qualquer coisa, como a caridade, já pensamos a partir dos pressupostos desses quadros morais, os quais farão que a caridade seja considerada de um jeito, e não de outro.

Para evidenciar os quadros morais modernos, quero elencar apenas duas grandes transformações que ocorreram nas sociedades ocidentais, e que fizeram de nós o que somos hoje.

A primeira é a reforma protestante, no século XV, que acentuou a importância da vidanunciando a ela, como faziam os medievais. Com isso, os reformadores contestaram a figura, por exemplo, de Francisco de Assis, o qual, diriam eles, ao invés de ter deixado o comércio de seu pai para se tornar um monge mendicante, deveria ter assumido e expandido os negócios do pai, gerando emprego, renda e tributos. Isso lhe parece familiar? Quem nunca ouviu dizer que “o verdadeiro espírita se mostra na família, no trabalho, etc.”? Isso porque, desde a reforma, a ideia de realizar o plano divino era cada um buscar sua prosperidade individual, a qual resultaria em prosperidade coletiva. A ênfase é no indivíduo, e a felicidade do todo, se for o caso, vem depois da felicidade individual.

syrian-refugees-opener-615O segundo é o capitalismo que, desde o século XVI, mercantilizou as coisas da natureza e as relações humanas, reduzindo-as a alguma soma em dinheiro. O mundo se tornou, então, uma grande teia mercadológica, onde agimos, por uma existência inteira como produtores e consumidores econômicos na qual os objetivos de vida giram em torno da aquisição de capacidades para “vencer na vida”, ou seja, ser capaz de consumir mais e melhor que outros.

Essas duas grandes transformações são suficientes para dizer que os horizontes morais onde levamos nossas vidas estão saturados de individualismo e de mercantilização:  compreendemos o mundo e o homem pelas lentes do individualismo e do capitalismo e, por isso, tratamos seres humanos como seres individuais e econômicos, a ponto de tornar qualquer discussão sobre o coletivo e o não-econômico algo sem sentido ou sem importância.

maxresdefaultPorém, para quem sente alguma inadequação neste mundo de misérias, de guerras e de refugiados de guerra, de marginalidade, de criminalidade e de desigualdades, onde moralmente acolhe-se o que há de pior, e vislumbra que um futuro melhor é possível, o espiritismo fornece profícua compreensão no debate sobre o alcance e o impacto que a caridade pode causar ao mundo.

Esse debate exige, primeiro, a indignação com este mundo, de provas e expiações, de ambiente moral sufocante, de ordens e institutos sociais artificiais, perversos,  claustrofóbicos e tímidos, inadequados a fazer com que o amor possa resplandecer com plenitude. Indignar-se é romper a casca da caridade para já sentir seu cheiro, pois somente rejeitando este mundo, tal qual ele se apresenta, é que se pode pensar em mudá-lo. Para quem acha que está tudo bem, que basta trocar pequenas peças na engrenagem social sem problematizar a máquina como um todo, então, como dito, não há sentido nessa discussão.

Da indignação, o próximo passo em direção à caridade é refletir sobre a justiça, e não onordeste amor. Do amor sabemos quase nada, e basta pensar no seguinte: uma mãe, seu filho e mais dez crianças desconhecidas entre si estão perdidas num deserto. Após dois dias privados de tudo, a mãe encontra uma garrafa com 500ml de água. Pergunto: você espera que a mãe repartirá a água igualmente entre todos, ou preferirá alguém em detrimento de outros? Veja que mesmo o amor de mãe, como a mais alta expressão do amor neste planeta, ainda está cheio de egoísmo.

Porém, qualquer um é capaz de sentir a experiência da justiça ou da injustiça, mesmo as crianças. Se, numa festa de aniversário infantil, um pequeno bolo é repartido igualmente entre todas as crianças, provavelmente ninguém reclamará. Mas, mesmo se triplicarmos o tamanho do bolo, e duplicarmos a fatia dada a cada criança, se alguma delas receber um pedaço maior do que as demais, pode esperar que haverá confusão. Experimentar a justiça/injustiça é algo profundamente humano e cotidiano: é um filho que se sente menos amado pelos pais do que seu irmão, é o empregado que recebe menos do que efetivamente produz e merece, é o cidadão que paga tributos e não percebe a contrapartida estatal, etc.

Com isso, Kardec bem viu que só há caridade se, primeiro, houver justiça. A sequência “Lei de Justiça, de Amor e de Caridade” não se dá ao acaso. Mas, aqui, temos um problema: os espíritos da codificação apontaram que a justiça consiste no respeito aos direitos dos demais, e o que constitui meu direito está atrelado ao interesse do outro (Pergunta nº 875 e 875 a – LE) Ou seja, só posso legitimamente reivindicar algo como meu direito se isso corresponder aos interesses do próximo: a medida da justiça não reside em meu interesse, mas no interesse alheio.

13423808_10201865419193293_6504347741640139137_nPrecisamos esmiuçar isso. A pergunta é: o que dá substância ao meu direito? O que transforma em direito aquilo que considero meu direito? A resposta: o interesse do outro. Então, se meu direito à alimentação se der em detrimento da privação alheia, posso até usufruir tal direito, mas estarei sendo injusto. Porém, para nossa moral individualista e mercantilizante isso não é problemático. Ao contrário, o sistema jurídico atual protege os interesses do indivíduo em detrimento de toda uma coletividade, de modo que nossa organização jurídico-social é o oposto do que apontam os espíritos como sendo uma  sociedade justa.

Pela visão dos espíritos, portanto, a experiência da justiça é o momento primeiro e   essencial da alteridade, na qual precisamos perceber e considerar o outro, o próximo, aquele que segue ao meu lado, a quem devo tomar como medida dos meus direitos. Assim, se quero o direito à alimentação, é porque quero antes que todos o tenham, e se não tiver para todos, o justo é aquele que se priva para dar a preferência ao outro. Mas o leitor já sabe que, neste mundo, é o contrário que ocorre. Se sequer conseguimos ser justos, quiçá caridosos.

É a justiça que nos abre para o amor, que é o dar sem medidas e sem contraprestação, e para a caridade, que é o compartilhar, e não o doar. Aqui, chegamos ao cerne da caridade. Doar significa dizer “isso é/era meu, e estou te dando”. A isso há uma palavra específica: beneficência. A pessoa que doa é beneficente, o que é bom e deve ser incentivado, mas não é caridosa.

Caridade, como compartilhar, é impossível dizer “isso é meu, e vou te dar”, mas dizer igual“isso é nosso”. O caridoso não sente satisfação em dar alimento, roupa ou o próprio tempo, porque sabe que compartilhar é sua obrigação, e se houver alguém faminto, nu ou merecendo atenção, ele será o primeiro a compartilhar a comida, o agasalho e o tempo, não dizendo “tome a minha sopa, o meu agasalho ou o meu tempo”, mas dizendo “tomemos nossa sopa, cubramo-nos com nosso agasalho e dividamos nossos tempos”, pois antes de ser caridoso, ele é justo.

Como disse, nossa sociedade é formada por seres individualizados e mercantis, donos de algo: de residência, de veículo, de empresa, de empregados, de objetos, etc. São pessoas que pensam: “preciso de uma moradia, então, empregarei meus esforços para conseguir tal objetivo”. Porém, o caridoso se autocompreende como um ser coletivo, não-mercantil, não-proprietário. Ele diz: “posso ter as coisas para mim, mas estou inserido numa coletividade de pessoas tão dignas quanto eu, e tudo o que existe não é só meu, mas de todos”. São pessoas que pensam “todos precisam de moradia, então, vamos empregar nossos esforços para que todos alcancem tal objetivo”.

Quando o espírita não aprofunda essas questões, imagina extirpar o mal pela raiz quando sequer consegue arranhá-lo. Por exemplo, pensa que pode acabar com o egoísmo (PERG. Nº 913 LE) deixando de consumir aqui, doando roupas e comida ali, dispondo seu tempo acolá, etc. Isso é válido. Mas se não problematizar a estrutura moral e social, principalmente a ocidental e moderna, que acolhe a satisfação dos interesses egoísticos como algo válido ou bom, será como lavar uma panela engordurada com óleo, e não com sabão, ou seja, não resolve.

Por isso, somente questionando os horizontes morais onde vivemos é que podemos compreender o conceito de caridade dado pelos espíritos, como “benevolência para com todos, indulgência para com as imperfeições alheias e perdão das ofensas”, (perg. 886 LE), num sentido mais pleno.

Se a essência da caridade é o compartilhar, “benevolência para com todos” significa que o
bem que você quer “aos seus”, você também o quer imulti-ethnic-people-in-traditional-dress-looking-at-globe-ax4f7pindistintamente a todos: o amor de uma mãe para com o filho será igual a qualquer outro; não haverá acusações, julgamentos e condenações, pois ninguém acusa, julga e condena aquele que ama; ninguém será dono de nada e de ninguém, pois não se dirá “isso é meu” ou “está ao meu dispor”; não haverá guerras e nem os horrores que ela causa; todos serão considerados em sua dignidade, e a ninguém faltará o necessário, mas também ninguém desejará o supérfluo. Trata-se de algo diverso do panorama moral onde levamos nossas existências, onde o amor é o que se devota a um círculo restrito de familiares, onde diariamente acusa, julga, condena e        encarcera, onde há proprietários de coisas e de pessoas, onde conta-se o maior número de refugiados de guerra de todos os tempos, e onde o supérfluo é desejado com uma voracidade especial, ainda que a muitos falte o essencial.

Daí, se todos são bons para com todos, “indulgência para com as imperfeições alheias” significa o reconhecimento de que compartilhamos uma mesma humanidade falível, que aquele que caminha ao meu lado é tão imperfeito quanto eu, e que se não devemos aceitar a injustiça e a opressão, tampouco devemos nos arvorar na condição de juízes. Daí, o “perdão das ofensas” se impõe como expressão mais alta do amor, a de compartilhar com meu irmão a experiência do erro, e de reconhecer naquele que errou a sua incapacidadde fazer o melhor e de amar com plenitude.

miséria-reproducaoSe numa sociedade caridosa tudo é de todos, se ninguém distribui roupas porque ninguém passa frio, se ninguém dá sopa porque não há fome, se a existência é um universo de possibilidades para a realização do ser, então o desafio é começar a se indignar com este mundo velho e esquizofrênico, enfrentar suas questões de frente, e deixar de encobrir artificialmente suas dores e defeitos com práticas superficiais e falas batidas. Por exemplo, fala-se muito sobre a paz, mas metade da economia americana, e boa parte da brasileira,  gira em torno da guerra. Daí, vestir camisas brancas e clamar pela paz é válido, mas o desafio efetivo é exigir o fim da indústria bélica. Outro exemplo é dizer “a Terra é uma escola”, como se a sociedade fosse perfeita e os indivíduos o problema, sendo que para quem sente o vazio da fome, o peso da marginalização ou o amargor da indiferença e do desprezo, este Planeta se parece pouco com uma escola.

No horizonte cristão, esse enfrentamento é contado na parábola do Samaritano. O fariseu e o levita evitam o homem dado como morto não porque eram pessoas más, mas,  porque respeitavam as leis e as instituições de seu tempo, que mandavam não tocar em mortos. O verdadeiro irmão, o modelo de pessoa caridosa, é aquele que desconsidera apriorismos, preconceitos, leis e convenções sociais em prol da contingência e da concretude da vida. Para o Samaritano, a única verdade é que a dor, a fome, o analfabetismo, a ignorância e a marginalidade alheias são concretas e, portanto, suas também. Para ele, quem morreu afogado não foi Aylan, um menino sírio que fugia da guerra, mas seu irmão mais novo, seu filho e, num grau mais elevado, ele próprio. Enfim, o Samaritano sabe que o “Médicos Sem Fronteiras” é uma instituição fantástica, mas também sabe que o desafio é construir uma sociedade onde ela não seja mais necessária.

Por isso, em lugar de reproduzir discursos e formas sociais de manutenção de misérias e de big_thumb_a733f9ee07a3e08f0047ab2b68d6568copressão, precisamos gritar que este mundo – que poderia ser o mais doce pedaço de terra e água vagando pelo espaço, onde a indiferença, a perfídia, o crime e a guerra fossem desconhecidos, onde a única preocupação seria explorar as potencialidades ao máximo, onde não faltas-sem braços para levantar quem caiu, e onde fosse tão saturado de amor que envergonharia o simples pensamento de maldade – precisa ser corrigido e que é necessário buscar o melhor.

Novamente, isso é uma questão de auto-compreensão: enquanto nos compreendermos como seres individuais e mercantis, fadados a produzir e a consumir eco-nomicamente uma existência inteira, e a querer isso para nossos filhos, então o que há está bom. Mas para aqueles que sentem algum incômodo, podemos começar a vislumbrar o que seja uma sociedade cari-dosa, de seres que se autocompreendem inseridos numa coletividade cósmica. O primeiro passo é indignar-se, mas isso é a história que contaremos acerca de nós mesmos.

Raphael Faé Baptista é servidor público federal, e mestre em Filosofia.


875. Como se pode definir a justiça?

“A justiça consiste no respeito aos direitos de cada um.”

a) O que determina esses direitos?

“Duas coisas: a lei humana e a lei natural. Tendo os homens feito leis apropriadas a seus costumes e a seu caráter, essas leis estabeleceram direitos variáveis com o progresso das luzes. Vede se vossas leis atuais, apesar de imperfeitas, consagram os mesmos direitos que na Idade Média; esses direitos antiquados, que vos parecem monstruosos, pareciam justos e naturais, naquela época. O direito estabelecido pelos homens nem sempre, portanto, está de acordo com a justiça; aliás, ele apenas regula algumas relações sociais, enquanto que, na vida privada, há uma imensidade de atos que são unicamente da alçada do tribunal da consciência.”

886. Qual o verdadeiro sentido da palavra caridade, assim como a entendia Jesus?

“Benevolência para com todos, indulgência para as imperfeições dos outros, perdão das ofensas.”

O amor e a caridade são o complemento da lei de justiça, pois amar o próximo é fazer-lhe todo o bem que nos seja possível e que desejaríamos que nos fizessem. Esse é o sentido das palavras de Jesus: Amai-vos uns aos outros, como irmãos.

A caridade, segundo Jesus, não se restringe à esmola; ela abarca todas as relações que temos com nossos semelhantes, sejam eles nossos inferi-ores, nossos iguais, ou nossos superiores.
Recomenda-nos a indulgência, porque nós mesmos necessitamos dela; proíbe-nos de humilhar o desafortunado, contrariamente ao que comumente se pratica. Se uma pessoa rica se apresenta, temos para com ela mil atenções, mil deferências; se ela for pobre, parece-nos que não necessitamos nos incomodar com ela. Quanto mais la-mentável for a sua posição, ao contrário, mais devemos hesitar em aumentar sua desgraça pela humilhação. O homem verdadeiramente bom procura elevar o inferior aos seus próprios olhos, diminuindo a distância entre eles.

913. Dentre os vícios, qual é o que se pode considerar como radical?

“Já o temos dito muitas vezes: é o egoísmo; daí deriva todo o mal. Estudai todos os vícios e vereis que, no fundo de todos, há o egoísmo; de nada adiantará combatê-los, não chegareis a extirpá-los, enquanto não tiverdes atacado o mal pela raiz, enquanto não tiverdes destruído a causa. Que todos os vossos esforços tendam portanto, para este objetivo, pois aí está a verdadeira chaga da sociedade. Todo aquele que quiser aproximar-se, desde esta vida, da perfeição moral, deve extirpar de seu coração qualquer sentimento de egoísmo, pois o egoísmo é incompatível com a justiça, o amor e a caridade: ele neutraliza todas as outras qualidades.”


Matéria publicada em Setembro  de 2015, Volume II, Ano I.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s