A Ciência Espírita e o Espiritismo

No sentido lato, a ciência significa simplesmente o saber, a instrução ou a compreensão de algo. Entretanto, a palavra possui um sentido stricto e neste é conceituada como um conjunto de conhecimentos obtidos através de um procedimento característico de investigação e análise, que compõe a chamada metodologia científica.

mediunidadeEnxergando-se um processo contínuo de geração de saber, pode-se pensar na ciência não apenas como um modo próprio de obter tais conhecimentos, mas uma composição ou corpo dinâmico de idéias ou teorias geradas em torno de fenômenos variados, que são denominados conhecimentos científicos.

As peculiaridades dos fenômenos estudados dão origem às diversas áreas científicas, que por sua vez agrupam conhecimentos particulares, comportando subdivisões ainda mais específicas, como as disciplinas. Daí se justifica adjetivação que caracteriza a aplicação dos rigores da metodologia científica num campo específico, que lida com fenômenos particulares, historicamente creditados à crendice, à superstição e à fantasia: as manifestações do psiquismo, em seus diversos matizes:


O Espiritismo tem por fim demonstrar e estudar a manifestação dos Espíritos, suas faculdades, sua situação feliz ou infeliz, seu futuro; em suma, o conhecimento do mundo espiritual.  (Allan Kardec, O que é o Espiritismo, cap. II, item 20, Dos Espíritos, pág. 156, FEB, 24ª Ed.)

Pode-se ver que as manifestações espíritas (…) são fenômenos que se produzem em virtude da lei que rege as relações do mundo visível com o invisível (…). O Espiritismo é a ciência que nos faz conhecer essa lei, como a mecânica nos ensina as do movimento, a óptica as da luz etc. (Allan Kardec, O que é o Espiritismo, cap.II, item 32, Comunicação com o mundo invisível, pág. 162, FEB, 24ª Ed.)


Quando se encontram denominações como: ciências da vida, ciências objetivas, ciências formais e ciências humanas, o sentido dessa adjetivação não carrega unicamente as peculiaridades dos objetos a serem analisados, mas veicula também exigências com relação aos métodos e técnicas de abordagem mais adequadas ao seu estudo. Os princípios dessas abordagens são a reprodução experimental, a pesquisa observacional e a simulação matemática. Algumas são mais apropriadas do que outras, exatamente por conta dos caracteres específicos dos fenômenos. O exame de um fenômeno físico como a ação gravitacional exige tratamento distinto daquele reservado à análise do comportamento do mercado financeiro. Pois a investigação da realidade psíquica, que abre as portas da espiritualidade, também requer um tratamento diferenciado, respeitando suas particularidades:


Nos fenômenos das ciências naturais agimos sobre a matéria inerte e a manejamos à nossa disposição. Nos fenômenos espíritas agimos sobre inteligências que dispõem de livre arbítrio e não se submetem à nossa vontade. (Allan Kardec, Revista Espírita, jan. 1859, O Príncipe G., pag.2, Edicel)

As relações entre o mundo físico e as dimensões extrafísicas, cada vez mais exploradas pela física moderna, existem tanto no nível da percepção extrassensorial quanto das manifestações objetivas, embora pronunciadamente mais fortes no primeiro. Produzem uma variedade enorme de fenômenos parapsíquicos, mediúnicos e anímicos. Esta inserção do paranormal na esfera do sensível permite sejam empregadas as mesmas ferramentas da ciência em sua pesquisa, desde que respeitadas as sutilezas e particularidades envolvidas nos fenômenos:

Até o presente, o estudo do princípio espiritual, compreendido na Metafísica, foi puramente especulativo e teórico. No Espiritismo, esse estudo é inteiramente experimental. Com o auxílio da faculdade mediúnica (…) o homem se achou de posse de um novo instrumento de observação. A mediunidade foi, para o mundo espiritual, o que o telescópio foi para o mundo astral e o microscópio para o dos infinitamente pequenos. Permitiu se explorassem (…) as relações do  mundo espiritual com o mundo corpóreo; que, no homem vivo, se destacasse do ser material o ser inteligente e que se observassem os dois a atuar separadamente. (Allan Kardec, A Gênese, cap. IV, itens 16, Papel da Ciência na Gênese, pág. 92-93, FEB, 27ª Ed.)

Outro aspecto da ciência e de qualquer disciplina que tenha conteúdos científicos é oo-que-e-ciencias-humanas1 caráter progressivo. Embora as bases disciplinares tendam a se consolidar, há um processo constante de aprimoramento e generalização, que faz com que conteúdos mais recentes e menos fundamentais sejam identificados e desenvolvidos como casos particulares de teorias mais amplas ou mesmo sejam reconhecidos como inadequados ou errôneos. O reconhecimento da importância da abordagem científica hoje é unânime no meio acadêmico: a medicina há muito tempo busca respaldo científico em todos os seus procedimentos; a engenharia atual tende cada vez mais a substituir procedimentos empíricos e se basear na pesquisa científica; no direito, o papel da ciência cresce continuamente; o esporte, em suas variadas modalidades, igualmente busca respaldo científico onde se possam ampliar o desempenho atlético, sem ignorar outros fatores que compõem este ramo de atuação. No espiritismo ou doutrina espírita, não poderia ser diferente. Da própria lavra do codificador, pode-se extrair:

Um último caráter da revelação espírita, a ressaltar das condições mesmas em que ela se produz, é que, apoiando-se em fatos, tem que ser, e não pode deixar de ser, essencialmente progressiva, como todas as Ciências de observação. (Allan Kardec, A Gênese, cap. I, item 55, pg. 44, FEB, 27ª. Ed.)

Kardec queria uma doutrina dinâmica, capaz de enfrentar, frente a frente, as descobertas da ciência, particularmente com relação à psique, mas também fazer com que os espíritas entendessem, interpretassem e melhor se posicionassem com relação às mudanças sociais, políticas, culturais e morais do mundo:

Desde que o Espiritismo não se declara estacionário nem imutável, assinalará todas as verdades que forem demonstradas, venham de onde vierem, ainda que de seus antagonistas, e jamais ficará na retaguarda do progresso real. (Allan Kardec, Revista Espírita, jan. 1866, Considerações sobre a prece no Espiritismo, pg. 8, Edicel)

Deste modo, é impossível imaginar o espiritismo estacionário, pronto, acabado. Mas o Espiritismo, assim como as diversas disciplinas e ramos de atuação humana anteriormente citados, não é exclusivamente uma ciência. Não busca o conhecimento pelo simples conhecimento; há outros propósitos, ainda mais importantes. Por isso, a melhor caracterização do espiritismo é a de doutrina, conceito este referente a um corpo de idéias ou conjunto de princípios, pertinenCientistas tentam desvendar, cientificamente, a almate a uma escola de pensamento, que se ocupa em estudar um determinado assunto ou objeto. Modernamente, poder-se-ia dizer que uma doutrina é um sistema de idéias, calcada em paradigmas – conjunto de hipóteses, pressupostos ou mesmo crenças – fundamentada por argumentos das mais diversas categorias: científicos, filosóficos e mesmo religiosos. Assim, os paradigmas são encontrados tanto no conteúdo de modernas disciplinas acadêmicas quanto nas encíclicas e orientações das igrejas. No espiritismo há um tríplice aspecto em sua constituição, porque ciência, filosofia e religião interagem de forma harmônica. Kardec jamais ignorou que o papel fundamental da filosofia, pois no cabeçalho de O Livro dos Espíritos se encontra escrito literalmente: filosofia espiritualista.

O Espiritismo, que entende com as mais graves questões de filosofia, com todos os ramos da ordem social, que abrange tanto  o homem físico quanto o homem moral, é em si mesmo, uma Ciência, uma Filosofia, que já não podem ser aprendidas em algumas horas, com nenhuma outra Ciência. (Allan Kardec, O Livro dos Médiuns, Primeira Parte, cap. II, item 13, Do maravilhoso e do sobrenatural, pág. 29, FEB, 51ª Ed.)

Hoje se reconhece claramente que o conteúdo filosófico da doutrina espírita é proeminente: apregoa uma moral fraterna e universalista, busca uma postura política de harmonia, um senso de estética livre de preconceitos e efetiva a construção de um modelo metafísico geral a partir das informações colhidas pela mediunidade e outras faculdades extrassensoriais, onde as questões do destino, do ser, da dor, da evolução, do universo, ganham explicações acessíveis e coerentes. Todavia, é a ciência espírita que dá respaldo a maior parte dos elementos que sustentam essa filosofia, particularmente as pesquisas sobre a sobrevivência da alma, a reencarnação, a possibilidade de intercâmbio entre os encarnados e os desencarnados e ainda a pluralidade dos mundos habitados:

A crença no Espiritismo já não será simples aquiescência, muitas vezes parcial, a uma ideia vaga, porém uma adesão motivada, feita com conhecimento da causa (…) assentando numa base precisa e definida, essa qualificação nenhum equívoco dá lugar, permitindo aos adeptos que professem os mesmos princípios caminhem pela mesma senda se reconheçam, sem outra formalidade mais do que a declaração da sua qualidade (…). (Allan Kardec, Obras Póstumas, Segunda Parte, Constituição do Espiritismo, par. VIII, pag. 369, FEB,19ª ed)


Carlos Loeffler é professor da Universidade Federal do Espírito Santo e autor do Livro Fundamentação da Ciência Espírita.

Matéria publicada em Fevereiro  de 2015, Volume II, Ano I.
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