O Terrorismo Deles

1Na edição de Fevereiro de 2015, o filósofo Raphael Faé tece uma reflexão acerca do terrorismo em razão do ataque a Revista Charile Hebdo na França ocorrido em Janeiro de 2015. Nesse iterem o autor busca analisar a violência reiterada no transcurso histórico da evolução humana. Em um mundo de provas e expiação somos diariamente confrontados com a dor como parte do processo pedagógico evolucional. Apegados ao egoísmo, os interesses econômicos têm flagelado a humanidade prosperando, dessa forma, os processos reiterados de dor. Sendo a violência sofrida por diversas vezes utilizada para justificar o uso de mais violência, tornando o processo cíclico. Divaldo Pereira Franco aduz que apesar do desenvolvimento intelectivo, em qualidade moral, como civilização, permanecemos os mesmos de dois mil anos atrás. Libertar-se da dor como mecanismo de evolução é uma decisão proativa. Todavia, sobre a premissa do livre-arbítrio e da lei de causa e efeito regentes do processo evolutivo espiritual, questiona o autor até quando essa realidade posta não traduz como responsabilidades de nossas ações!? A inquietante pergunta merece maior meditação.


Mais uma vez, a recente ação contra o jornal francês Charlie Hebdo colocou o terrorismo na pauta da mídia internacional, a qual veiculou, nas últimas décadas, apenas um tipo de terrorismo, aquele ligado à religião, a ponto de ter gerado uma pré-compreensão que pareou terrorismo, fundamentalismo religioso e islamismo. Essa vinculação, que deu uma cara e uma identidade ao medo multiforme contra o mal, foi um passo necessário a fomentar uma opinião pública mundial favorável às intervenções militares em países do Oriente Médio, mas cujo interesse real era meramente econômico, seja para controlar o petróleo, seja para colocar em marcha o complexo econômico-militar americano, conforme previsto (e fomentado) por Eisenhower, de uma economia em que quase metade do PIB gira em torno da guerra.

No entanto, qual interesse para brasileiros e, especificamente, espíritas, com relação ao terrorismo? Afinal, vivemos numa cultura da violência urbana. Nossos medos recaem em crimes de latrocínio, roubo, extorsão, etc., e não em sermos explodidos dentro do ônibus ou de um restaurante. E os espíritas,  pretendem reviver Jesus de modo pleno, bem longe de qualquer coisa que remeta ao “terror”? Porém, há questões mais profundas nessa temática, e que tocam, de modo sutil, mas intenso, o Brasil e o movimento espírita, o que pretendo apenas lançar algumas reflexões.

2Primeiro, precisamos desatrelar terrorismo de religião. Em regra, o terrorismo pode ser entendido como um método psicológico que inspira repetidas ações violentas, praticadas por indivíduos, grupos ou Estados, cujos alvos diretos não são a principal meta, como no homicídio, mas são escolhidos aleatória ou simbolicamene, a fim de manipular o alvo principal e alcançar, especialmente, fins políticos. Foi muito utilizado para afirmar regimes políticos ou ordens sociais, como nas execuções em massa da Revolução Francesa, que visavam intimidar os opositores do novo regime, ou nos Estados Unidos, onde ex-militares confederados criaram a ku-klux-klan para subjugar ex-escravos negros e impedir sua inserção social. Também teve uso em lutas de libertação em países dominados.

Num deles, o terrorista de nome Rolihlahla criou uma milícia armada, explodiu bombas, incitou à violência e matou civis. Preso e condenado à prisão perpétua, saiu da prisão após trinta anos mais conhecido como Nelson Mandela, que conduziu a África do Sul a uma democracia, num processo sociopolítico em cuja base não houve lugar para uma justiça que buscava culpados, mas o perdão histórico. Por fim, os Estados, agindo contra seus próprios cidadãos (regimes totalitários) ou estrangeiros (nas guerras), mataram, torturaram e violaram as regras de direito muito mais do que qualquer outro grupo.

Com essa brevíssima introdução, recoloco a questão: qual interesse de brasileiros e espíritas quanto ao terrorismo? Resposta: tudo. Principalmente por sermos herdeiros culturais de civilizações que se utilizaram (e ainda utilizam) fartamente do terrorismo, enquanto modo de violência: a europeia e a cristã.

esclavemarcelverdierNa primeira, a formação dos países europeus não se deu por respeito ao próximo ou consensos amistosos, mas pelas armas, por guerras centenárias e sangrentas, e até pouco tempo, uma das causas da 2ª Guerra Mundial foi o revanchismo por questões territoriais, em todos os casos empregando formas tão cruéis de violência, explícita ou simbólica, quanto as decapitações hoje realizadas pelo Estado Islâmico. Aliás, a formação do Estado Islâmico em nada difere da de qualquer  outro país, como o Brasil, que não chegou até aqui porque homens, entoando cânticos de paz, deram-se as mãos para construí-lo. Na base da constituição do Brasil está a ação de grupos europeus armados e violentos que, enceguecidos pelo novo Eldorado, escravizaram o negro e desossaram a civilização indígena, reservando às índias o papel de parir a primeira geração de brasilíndios (RIBEIRO, 2006), fruto do estupro, não do amor. E, se ainda contarmos o terror que europeus infligiram a incas e astecas e, recentemente, no “neocolonialismo” na África e na Ásia (lembra Gandhi?). O Estado Islâmico não passaria de um bando de frouxos (que não leiam isso!), que escondem o rosto para decapitar um infeliz. Porém, os mesmos europeus (e americanos) que lhes armaram e treinaram nas antigas parcerias, agora apresentam seus integrantes como a encarnação de todo o mal.

Na segunda, a civilização cristã não fez diferente [1]. Primeiramente, a linguagem cristã é altamente contrastante, e opõe o joio do trigo, os que sentam à direita da esquerda, os que ouvem e veem dos cegos e surdos, logo, gera o superior e o inferior, o salvo e o condenado. E, o mais perigoso, ao incitar o “Ide e pregai”, e uma vez que é nosso dever “chamar à força os que recusaram o convite às bodas do Senhor”, daí ao uso da violência como justificativa para atingir os objetivos considerados mais elevados é um pulo.

Essa foi uma das razões da incompreensão dos romanos, acostumados a conviver com vários deuses, com a firmeza de cristãos em não renegarem o seu Deus, mesmo diante da morte. Pode-se dizer que “estavam certos” em manter a crença, ou que “seu Deus era mesmo superior”, mas isso depende de qual visão de mundo você parte, e se for a cristã, então é lógico que eles acertaram. Porém, no plano político, a postura romana é o que hoje chamamos de democrática, e a cristã é o que denominamos de fundamentalista, de que a correta percepção do mundo é apenas uma. Por isso, a perseguição contra os cristãos era derivada, em parte, da vontade de poder e dominação romana e, em parte, da intransigência de cristãos (BAUMAN, 1998).

Sem elencar cismas, perseguições aos “hereges” e Inquisição, a civilização cristã chegou à modernidade e à contemporaneidade empregando não menos violência, poderíamos dizer, terrorismo. Numa delas, os índios, em regra, compartilhavam o que produziam e cada um era responsável por todos, não havia propriedade privada, fome ou miséria, e o tom da relação com os demais e a natureza incluía a percepção holística de que tudo era importante. Daí, chegam os cristãos e afirmam o equívoco daquilo tudo, introduzem uma autocompreensão baseada na queda e no pecado e, no fecho de toda uma narrativa do medo, apresentam um Deus vingativo e onipresente.

E, hoje, grupos cristãos continuam fazendo o mesmo na Amazônia brasileira, cuja “libertação” significa prendê-los numa perspectiva medíocre da humanidade do homem, em que a força física, o riquíssimo senso estético, e a relação liberta com o corpo, próprio e alheio, a ponto de viverem nus toda uma existência sem receio de estupro, dá lugar a um bando de ovelhas reprimidas, com medo de si, dos outros e de Deus, já que devem se autocompreender como depravados.

 Logo, a “evangelização” (que nome!), de ontem e de hoje, nada mais foi e é que o emprego metódico da violência, física e psicológica, para impor visões de mundo a outros grupos, sendo, pela consideração acima, terroristas, tão bem-intencionados quanto os que atacaram o jornal francês, imaginando-se à serviço de Deus (ou Alá).

4Já o século XXI se inicia assistindo ao império econômico-militar mundial, sob o discurso de direitos humanos e de viés fortemente providencialista-cristão de serem os agentes da ordem divina no mundo, promover a morte, a tortura, a guerra e seus horrores, a execução de chefes de estado, contando ou com apoio ou com a omissão do mundo também cristão. Aliás, não me recordo de ter havido, no mundo, no Brasil ou entre espíritas nenhuma   nenhuma grande resistência ao extermínio americano (cristão) de iraquianos (islâmicos). Ao contrário, lembro-me ainda hoje, quando da eclosão da guerra no Iraque, em 2002, conhecida jornalista da Globo noticiando que “x rebeldes iraquianos foram mortos…” e, logo em seguida, expressando com espanto que “x soldados americanos foram assassinados…”. Ora, o invadido e subjugado “é rebelde” e “é morto”, enquanto o invasor “é assassinado”? Essa inversão de valores só se torna lógica quando reconhecemos que mídia, interesses políticos e econômicos agem em uníssono para dominar e oprimir, mediante o uso de uma violência típica de um terrorismo nosso, sádico, que não lança meras bombas, como eles, mas que nos faz acreditar que nossa bomba é abençoada, nada mais que a paga divina que eles merecem.

Portanto, terrorismo é algo amplo e fartamente utilizado, e a formação política e social brasileira herda o que há de pior das civilizações europeia e cristã, principalmente um conforto moral quanto ao uso da violência. Neste pormenor, não me parece haver nenhum incômodo com o fato de o Brasil ser um grande exportador de morte, de franceses, de palestinos e muitos outros, já que abriga quatro grandes indústrias bélicas: Taurus, Imbel, CBC e Embraer.

Desse modo, chegamos ao cerne da problemática do terrorismo, acerca das reconfigurações da violência. Assim, o filósofo canadense Charles Taylor (2010) argumenta que o século XX demonstrou que mesmo iniciativas seculares, portadores de alto grau de humanismo ou vistos como libertação da humanidade, converteram-se em tutelagem e despotismo, muitas cruéis, contra os refratários ao padrão sugerido. Tais empreendimentos, que criticaram a violência de sociedades e instituições religiosas, utilizaram-na fartamente: ou no viés do bode expiatório, para expungir o mal da sociedade redirecionando-o num alvo específico e concreto, seja esse alvo o capitalista americano, o terrorista “palestino” ou Jesus; ou na autoafirmação de nossa bondade e que o mal é externo, como tomar o terrorista como um mal autogerado, e não um produto global, nosso também; ou, por fim, na violência numênica, que reafirma a sacralidade do que deve ser sacralizado, em que o ato de matar em nome “de Deus”, “de Alá”, ou “dos valores democráticos” é, na verdade, um favor que se faz àquele que morre.

Essas posturas, que recompõem o uso da violência desses três modos, são injustificáveis, mas precisam ser compreendidas. São elas que incapacitam franceses e ocidentais em perceber que parte da reação do grupo que realizou o atentado no jornal Charlie Hebdo também é gerada por atitudes desses mesmos franceses e ocidentais, como de conceber a liberdade de pensamento algo absoluto, sacralizado a ponto de esperarmos gargalhadas de ofendidos quando suas crenças mais importantes são ridicularizadas. E, por isso, auto afirmando nossa bondade e realçando a maldade deles, costumamos não entender a reação de muçulmanos, os quais, sentindo que sua própria dignidade enquanto civilização foi afetada, demonstram irresignação e respondem de alguma forma, normalmente concentrando (e aplacando) seu inconformismo contra bodes expiatórios que encarnam, de algum modo, algo de relevante para os ofensores, seja o World Trade Center, seja cartunista na França, seja cristãos na Nigéria. E, com a roda da violência girando, ocidentais prepararão o retorno igualmente violento, e por aí vai.

Parece que, na base disso tudo, está a tensão entre liberdade e respeito, entre ser livre para agir e o dever de considerar meu próximo. Por isso, “sou Charlie Hebdo”, porque entendo que a liberdade, como a de expressão, é uma das maiores conquistas da humanidade, obtida mediante muito sofrimento. Porém, também “não sou Charlie Hebdo”, porque acredito que, pareado ao meu direito de me expressar, também devo respeitar o meu próximo, um ser humano tão imperfeito, limitado e perfectível quanto eu, com sua visão de mundo, seu modo de interpretar a realidade e de se realizar existencialmente. Em ambos os casos, a violência é injustificável, seja a praticada pelos e contra os cartunistas, e fico a pensar se não teríamos ganhado mais, enquanto civilização, se os cartunistas assassinados tivessem voltado todo o talento e capacidade para denunciar a hipocrisia e o fundamentalismo de nossa sociedade liberal-capitalista e seu terrorismo diário, que produz um batalhão de miseráveis, de prisioneiros do consumo e do trabalho alienado, os quais cultuam diariamente o Deus-Dinheiro, ofertando em sacrifício as vidas próprias e alheias.

Mas, qual a relação disso tudo com o movimento espírita? Tudo. Se ele tramita no contexto cultural brasileiro acima colocado, constituído política e socialmente sob a violência, e se multimilenarmente o seu uso em prol de altos objetivos foi uma constante, tendo se reconfigurado de diversos modos, por que o movimento espírita estaria isento de se apropriar das formas de violência acima de descritas, especialmente aquelas veladas, como em modos de tutelagem e despotismo, seja na ação, ao impor certas visões de mundo, seja na omissão, quando emudece diante de descalabros morais?

Certamente que isso é muito sutil, e a linha entre apresentar um pensamento e impô-lo, ou respeitar a autonomia e exigir comportamentos, ou, como visto, entre liberdade e respeito, é muito tênue. Será que sabemos efetivamente o que significa respeitar e, principalmente, emancipar nosso próximo, de dar sem esperar qualquer tipo de resposta, positiva ou negativa, daquele com quem ombreamos? Lembro, aqui, do filme “A fraternidade é vermelha”, último de uma trilogia, em que a protagonista atropela um cachorro e, ao devolvê-lo, fica perplexa diante da indiferença do dono do animal. Este, então, questiona se ela, ao levar o cachorro de volta, preocupava-se efetivamente com o bem-estar do animal, ou se sua consciência a deixaria dormir naquela noite por tê-lo abandonado, ferido, na estrada.

Logo, se o que motiva a agir é o “dormir tranquilo”, pois “fiz a minha parte”, então algo precisa ser repensado. Muitos dormiram o sono dos justos por terem “feito alguma coisa”, pisando, com a melhor das intenções, sobre a face de seu irmão, impondo-lhe o que pensar e fazer, seja em ações específicas, como os jesuítas na inquisição, seja em ações gerais, quando leis penais determinam condutas que, se inobservadas, trazem o corretivo necessário, seja em contextos culturais, quando uma civilização exige que as demais a considerem a correta. Isso é colocar a mão na maçaneta para abrir a porta da violência: da cruz, da fogueira, da guilhotina, do genocídio, das bombas, da cadeira elétrica, da injeção letal, da prisão, do terrorismo, etc.

Aqui, penso no poder que o amor incondicional – capaz de tomar para si mesmo a culpa alheia – possui na tarefa de nos conduzir ao respeito à diversidade, de dar espaço ao debate, à divergência, e de perceber que quanto mais evidenciamos as diferenças, mais realçamos as semelhanças. Porém, historicamente, se ambientes de relativa convivência entre visões de mundo viveram certos momentos de paz, bastou que alguém afirmasse a soberania de um único Deus ou de uma única crença para lançar sobre ela a cisão e a guerra (BAUMAN, 1998). É só lembrar dos americanos que mataram iraquianos para afirmarem a soberania do direito humano à vida.

Diante disso tudo, não é de espantar as reações violentas e anti-fraternas de cristãos brasileiros contra um muito talentoso grupo de humor, o “Porta dos Fundos”, que brinca com aspectos da religião e do cristianismo, no youtube, ou na reação de americanos com a morte de Osama Bin Laden. Ambos em nada devem às manifestações de (alguns) muçulmanos quando veem suas crenças menosprezadas, ou à felicidade que exprimem quando atingem alvos ocidentais. E brasileiros, americanos e muçulmanos nada mais fazem senão reproduzir formas de violências profundamente incrustadas na humanidade. A questão é que espíritas se autocompreendem como aqueles que pretendem fazer diferente. Mas se, pelo humor, ridicularizassem Kardec ou o espiritismo? Se você se sentir menosprezado ou tentando a responder de alguma forma, então parece que a tarefa é mais árdua e profunda.

Raphael Faé Baptista – Bacharel em Direito, servidor público e mestre em filosofia.

[1] O discurso evangélico muitas vezes foi subvertido sendo utilizado em prol de interesses de poder (inquisição, cruzadas), como hoje o discurso Jihad ( a luta para conquista da fé pessoal) é subvertido e utilizado na promoção da Guerra Santa, sendo justificação para os ataques terrorista. Assim a civilização cristã na Idade Média não fez diferente do que atualmente realiza o Estado Islâmico. Ora, primeiramente, a linguagem cristã se levada em sua correlata denotação pode ser subvertida em seu valor. Torna-se necessário realizar a exegese na aferição de Paulo em 2 Coríntios 3:6 “ a letra mata, mas o espírito vivifica” [Nota da edição]

Referências

ALVES, R. O suspiro dos oprimidos. 6 ed. São Paulo: Paulus, 2006.
BAUMAN, Z. O mal-estar da pós-modernidade. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.
MASCARO, A. L. Cristianismo Libertador. Bragança Paulista: Comenius, 2002.
RIBEIRO, D. O povo brasileiro. São Paulo: Companhia das Letras, 2006. TAYLOR, C. As fontes do self: a construção da identidade moderna. Edições Loyola: São Paulo, 2011.
_____. Uma era secular. São Leopoldo, RS: Ed. UNISINOS, 2010

Matéria publicada em Fevereiro  de 2015, Volume II, Ano I.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s