Entrevista: Attilio Provedel

facebook1O professor universitário Attilio Provedel lidera o Núcleo de Estudos em Ciência e Espiritualidade (NECE) da UFES. Natural de Vitória, há seis anos participa da Associação Médico-Espírita do Espírito Santo (AMES), tendo promovido diversos eventos que procuram unir ciência e espiritualidade. Raphael Faé conversou com ele sobre os desafios do estudo e inserção da espiritualidade no contexto científico atual, e sua visão sobre outros assuntos.”

Jornal Crítica Espírita — Prof. Attilio, você está à frente do NECE (Núcleo de Estudos em Ciência e Espiritualidade) da UFES. Conte como se deu a formação desse núcleo, quais atividades são realizadas e quais os desafios para mantê-lo.

 Attilio Provedel — Em 2009, iniciamos o projeto SAUESP (uma Biblioteca Virtual sobre a Produção Científica em Saúde e Espiritualidade, que pode ser acessada no endereço http://www.sauesp.org.br/), cujo objetivo é identificar, sistematizar e divulgar, em ambiente Web, a produção científica sobre Saúde e Espiritualidade publicada em periódicos brasileiros online e na forma de teses e dissertações. A partir daquele ano, no âmbito da área de atuação da SAUESP e em parceria com a Associação Médico-Espírita do Estado do Espírito Santo (AMEEES), realizamos diversos cursos e seminários de extensão universitária sobre Saúde e Espiritualidade. Os eventos contaram com a participação de importantes pesquisadores e estudiosos brasileiros da área, dentre eles o Prof. Dr. Decio Iandoli Jr. (UNIDERP-MS), o Prof. Dr. Julio Peres (UNIFESP-SP), o Prof. Dr. Giancarlo Lucchetti (UFJF-MG), o Prof. Dr. Alexander Moreira Almeida (UFJF-MG) e, particularmente sobre prevenção do suicídio – uma de nossas maiores prioridades –, a Profª Drª Karina Okajima Fukumitsu (Mackenzie-SP), o Prof. Dr. Carlos Estellita Lins (ICICT/Fiocruz-RJ) e o Prof. Dr. Neury José Botega (Unicamp-SP). Especificamente em 2011, com a ampliação da SAUESP e o crescimento de interesse pelos cursos e seminários realizados, criamos o Núcleo de Estudos em Ciência e Espiritualidade (NECE) da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), com o apoio da Pró-Reitora de Extensão (ProEx/UFES). Dentre as atividades do NECE/UFES, destacam-se o desenvolvimento do ensino sobre o tema Ciência e Espiritualidade através da promoção de cursos, seminários e debates; o estímulo à realização de estudos e pesquisas interdisciplinares sobre Ciência e Espiritualidade; a publicação e divulgação de resultados de pesquisas em torno da temática; o intercâmbio com outras instituições; e, naturalmente, a manutenção e ampliação da base de dados SAUESP. Atualmente, nosso maior desafio é a manutenção de um grupo permanente de leituras e estudos das publicações científicas sobre Espiritualidade e a inserção do tema em disciplinas de cursos de graduação na área de saúde. O NECE/UFES não está vinculado a nenhuma corrente religiosa, não faz proselitismo e não pretende fazer propaganda nem hostilizar a espiritualidade, mas contribuir para a consolidação de um ambiente  favorável à discussão, integração e compartilhamento do conhecimento científico produzido, para troca de informações, aperfeiçoamento e inovação dos pesquisadores e profissionais, subsidiando trabalhos de investigação científica.

Jornal Crítica Espírita- No campo científico e acadêmico atual, o paradigma hegemônico é materialista. Quais os obstáculos que abordagens sobre espiritualidade enfrentam, e devem enfrentar, para ter a mesma relevância?

 Attilio Provedel – Tomando como exemplo a interface entre saúde e espiritualidade, os obstáculos no campo científico possivelmente começaram a surgir em meados do século XX, diante de uma necessidade de separar abordagens sobre espiritualidade em favor de uma grande ênfase no aspecto biológico-orgânico do indivíduo, o que trouxe inegavelmente muitas contribuições e avanços para a Ciência. Com isso, os aspectos de caráter humanístico-existencial passaram a receber menor atenção e as  abordagens sobre espiritualidade praticamente não existiam. Entretanto, percebe-se uma retomada de tais abordagens, com destaque para as últimas duas décadas. Atualmente verificamos um aumento significativo do interesse do meio acadêmico, considerando o número crescente de publicações científicas sobre o tema em todo o mundo. Ou seja, a importância dos aspectos espirituais do ser humano tem sido cada vez mais reconhecida e a resistência é bem menor hoje em dia. Um aspecto importante a ser destacado é que a própria Organização Mundial de Saúde (OMS) inclui a dimensão espiritual na qualidade de vida e, no cenário brasileiro, diversas universidades possuem grupos e núcleo de estudos e pesquisas sobre espiritualidade. 

Jornal Crítica Espírita—O que o levou para esse campo de estudos? Mais especificamente, qual a importância que você reputa ao estudo da espiritualidade, no contexto científico contemporâneo?

 Attilio Provedel – Sempre tivemos muito interesse pela investigação das relações entre religiosidade/espiritualidade e ciência. Como dissemos, visando contribuir neste contexto, criamos a SAUESP e posteriormente o NECE em nossa Universidade. Atualmente, além das atividades de extensão universitária, realizamos pesquisas na área dos estudos métricos da informação científica em saúde e religiosidade/espiritualidade. A importância do estudo da espiritualidade e suas contribuições vêm ao encontro do que se percebe atualmente: a ênfase no paradigma materialista não está sendo de modo geral suficiente para o indivíduo lidar com a diversidade de problemas e desafios, não só nos processos de doença, mas também na sua busca da própria felicidade e do entendimento sobre o significado da vida.

Jornal Crítica Espírita – Num dos cursos de extensão em “Ciência Saúde e Espiritualidade”, promovido pelo NECE/UFES, foi dito que um dos argumentos que motivou a aprovação institucional do curso foi o fato de haver pesquisas nos Estados Unidos sobre o tema. A que você reputa esse colonialismo intelectual, justo numa área onde o Brasil, e mais particularmente os espíritas, poderiam ser pioneiros?

 Attilio Provedel De fato, quase a totalidade das escolas médicas dos Estados Unidos inclui o assunto da espiritualidade no conteúdo de suas grades curriculares e os principais pesquisadores sobre o tema são norte-americanos, atuantes nas áreas de medicina e enfermagem. Ainda, várias associações norte-americanas têm   reconhecido a importância do ensino da espiritualidade na formação do profissional de saúde. Dentre os aspectos que contribuem para este cenário, é importante destacar o extraordinário pragmatismo norte-americano ao efetivamente considerar a dimensão espiritual em suas pesquisas, além do próprio sistema acadêmico de pesquisa e os recursos investidos. Mas o Brasil tem crescido em termos de produção científica sobre o tema e certamente possui um grande potencial para avançar neste sentido. Como afirmamos anteriormente, hoje em dia há mais abertura para pesquisas sobre espiritualidade e há grupos de pesquisa em diversas universidades brasileiras atuando de forma séria e rigorosa na geração de produção científica relevante sobre o tema e na integração da espiritualidade na saúde.

Jornal Crítica Espírita-Existe uma abordagem teórica e prática sobre espiritualidade nas empresas. De modo geral, é a espiritualidade utilizada como ferramenta de incremento do capital. Entendemos isso contraditório, pois espiritualidade, para nós, envolve a crítica ao paradigma da matéria, sob o qual tramita o capitalismo e suas contradições  endêmicas.  O que o senhor acha disso?

 Attilio Provedel Considerando o modo de vida na atualidade, acreditamos que seja importante também perceber de que forma a inserção da espiritualidade nas organizações – no caso citado, presumidamente as empresas comerciais – pode contribuir para a qualidade vida do colaborador da organização. Nesta situação, não se trata de implantação de religião, mas sim da adoção de princípios e valores comuns que podem auxiliar no bem-estar do indivíduo em seu trabalho e na espiritualização das lideranças. A abordagem da cultura da espiritualidade nas empresas pode alinhar-se com práticas essenciais no ambiente organizacional que trazem grandes benefícios. Dentre essas práticas, podemos citar basicamente o perdão, a gratidão, o altruísmo e a tolerância. Além do aumento de produtividade e do cumprimento de metas e da missão da organização, tudo isso pode levar a um clima de cooperação mútua, à valorização do indivíduo, ao respeito ao próximo, ao aumento nos níveis de felicidade, ao desenvolvimento pessoal e à redução do estresse e de transtornos depressivos que, em situações de agravamento, poderiam ocasionar a ideação suicida. Naturalmente, todos esses aspectos positivos da inserção da espiritualidade na organização também repercutiriam na vida do indivíduo como um todo, além do ambiente da empresa onde atua profissionalmente.

Jornal Crítica Espírita – Você participa da Associação Médico-Espírita do Estado do Espírito Santo (AMEEES), que é uma instituição espírita especializada, como a AJE ( Associação Jurídica Espírita) . Na sua visão, qual seria o papel de uma instituição espírita especializada no plano geral, e no estudo da espiritualidade em especial?

 Attilio Provedel -De modo geral, uma instituição espírita especializada – como é o caso da AMEEES e da AJE-ES, por exemplo – em princípio teria como uma de suas finalidades o estudo metodológico da Doutrina Espírita considerando sua aplicação nos campos da Filosofia, da Religião e da Ciência, no âmbito de sua área de atuação. No caso das instituições citadas, visariam ainda o esclarecimento e a expansão do movimento médico-espírita e jurídico-espírita a determinadas classes profissionais e ao meio espírita em geral. Neste contexto, considerando sua forma organizada e integradora de atuação, a participação de profissionais de suas áreas e pensando o Espiritismo como ciência, elas têm todas as condições de contribuir para a realização de estudos e pesquisas sobre ciência e espiritualidade, como já ocorre em diversas instituições espíritas especializadas brasileiras. Na realidade, qualquer instituição especializada, seja espírita ou ligada a outra doutrina/religião, tem condições de contribuir para o estudo da espiritualidade, desde que sua proposta seja bem fundamentada em termos das investigações científicas que se pretende realizar sobre essa temática.

Jornal Crítica Espírita – Alguns entendem que espiritualidade e espiritismo devem ser tratados de modo diverso. Um “evento espírita”, por exemplo, não deve abordar espiritualidade, mas espiritismo, e vice-versa. O que você acha disso?

 Attilio Provedel – Esta é uma discussão complexa, mas tudo depende da forma como os assuntos são tratados, da abordagem que está sendo dada e de quais pressupostos estão sendo considerados. Logicamente, é possível essa aproximação. Há publicações e eventos científicos onde fenômenos espirituais comuns ao meio espírita e a outras religiões são estudados e debatidos – como, por exemplo, mediunidade e reencarnação – com o mesmo rigor científico com que são tratados outros assuntos. Em contrapartida, há publicações e eventos espíritas onde cada vez mais são referenciadas pesquisas científicas sobre religiosidade/espiritualidade que sensivelmente aproximam e legitimam os postulados e princípios espíritas à luz da ciência oficial. Na realidade, percebemos no movimento espírita em geral – por exemplo, nas palestras públicas – uma exigência cada vez maior de respaldo científico, da lógica e da razão no âmbito dos estudos espíritas.

Jornal Crítica Espírita – Você será um dos debatedores do I Encontro Jurídico Espírita do Espírito Santo, que tem como tema “Novas estruturas econômicas, sociais e educacionais”. Qual sua expectativa pelo evento? E qual sua visão, enquanto professor, da abordagem sobre espiritualidade na educação?

 Attilio Provedel – Esperamos que o evento propicie profundas discussões. Será uma importante oportunidade de debates sobre questões que impactam nas transformações sociais tão desejadas por muitos de nós, visando um mundo de mais respeito e fraternidade. Com relação à abordagem sobre espiritualidade na educação, no âmbito da importância da espiritualidade em todos os níveis da formação educacional do indivíduo e na atribuição de significado à vida que ela pode proporcionar, pretendemos contribuir neste evento com as experiências que tivemos na trajetória de nossa iniciativa em ciência, saúde e espiritualidade na universidade, especialmente por meio da atividade de extensão universitária, ressaltando a importância do espaço de estudos e debates que foi criado, as repercussões dessa iniciativa e os novos caminhos que pretendemos seguir.

Entrevista publicada na edição de Fevereiro de 2015, Ano I, Vol, II.

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